sexta-feira, 24 de março de 2017

Diários







cat power | crying waiting hoping

Eis a noite da noite onde abro e folheio livros. Esqueço a minha vida toda, ponho-me a cismar sobre aquilo que ainda não sonhei. E aceito como único alimento, o brilho estático das estrelas. Aceito como único presságio a melancolia aérea das açucenas. Aceito como único consolo a desolação imensa dos teus braços. Aceito como único vício aquele cuja pele ainda não toquei. Aceito como única noite a das searas do fundo do mar. Aceito como única fala possível aquela que é susceptível de rasgar pulsos. Aceito como único corpo aquele que não cresceu dos relógios do mundo. Aceito como único sonho aquele espelho onde te reflectes e me encontro, a noite que me devora, aceito esta dor que me consome, esta escrita, este coração, este silêncio cada dia maior e mais perturbador, aceito esta cadeira, este livro, este nome, estes olhos esmagados pela insónia, esta cama vazia, este frio, aceito esta janela, esta música , esta faca, este sussurro, esta ausência, estes cadernos rabiscados que não servem para grande coisa... aceito a inutilidade de viver, de morrer, de estar aqui, de me deslocar, de permanecer imóvel, de esperar, a inutilidade de ouvir, de falar, de escrever, de amar, aceito o abismo, o olhar ferido na penumbra dos quartos, a dor das mãos percorrendo um corpo, aceito este vazio, aceito esta loucura que me assola lentamente, lentamente, aceito ficar louco, inconsciente, indefeso, aceito viver com estas garras cravadas na alma, aceito a tristeza que me ofereces, a pouca água que necessito para a minha sede, aceito nunca mais me lembrar de mim, nunca mais te tocar, aceito não possuir nada, não querer nada, aceito, aceito nunca mais aqui voltar, nunca mais.

Al Berto

terça-feira, 21 de março de 2017

Cairão os anos







nick cave & the bad seeds | love letter

Não deites fora as cartas de amor
Elas não te abandonarão.
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
- essa flecha de sombra -
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos
ocultar-se-ão em ti, no fundo do espelho.
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até a poesia.
O ruído frio da cidade nos vidros
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que tiveres guardado
serão a tua última literatura

Joan Margarit

sexta-feira, 17 de março de 2017

*







beirut | elephant gun

Estavas de costas
e eu toquei-te num ombro.
Demoraste três anos a voltar-te, o sol caía.

Joaquim Manuel Magalhães 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Se alguma coisa nasceu para voar











angel olsen | drunk and with dreams

As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas:

se olhares à flor dos campos e das casas 
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração. 

Carlos de Oliveira 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bem-vindo ao continente dos frágeis *











morphine | cure for pain

Saudades do tempo em que não precisava de escarafunchar as palavras dos outros, para sentir alguma coisa, porque ainda tinha as minhas.
Estava cá tudo do lado de dentro.

Agora não sinto nada além do vazio:
já nem a dor é dor.

( * Vasco Gato)

quarta-feira, 1 de março de 2017

F I M

.

Aniversário











beck | lost cause

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga ao teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.
O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
de vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor

Margarida Vale de Gato

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Com um coração às voltas












pj harvey | send his love to me

O nosso telefonema derramou-se na escuridão
e ficou a reluzir entre o campo e a cidade
como a confusão de uma luta com facas.
Posteriormente, inquieto e extenuado na cama de hotel toda a noite,
sonhei que era a agulha de uma bússola
a tentar orientar-me floresta adentro com um coração às voltas.

Robin Robertson

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Waiting for the miracle













leonard cohen  | waiting for the miracle

Quero de ti o que for simples
um aceno um postal
o teu nome numa concha

Ter apenas isto:
um banco de jardim
onde te esperar
e esperar.

Vasco Gato

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

34 (Cala-te um bocado junto ao mar)








the waterboys | this is the sea

Tem paciência. Estás há 34 anos a dizer
palavras, é natural que te canses
do ouro carregado nos dentes ciganos,
do poema. Cala-te um bocado junto ao mar
já tão cansado de lirismo e de piratas amadores,
exausto de motivos para a fina poluição do verso.
Aluga um moinho, compra umas cerejas frescas,
um salpicão, a vinha do tempo dos avós.
Leva contigo um quilo de castanhas, o disco da primeira separação, o teu par de patins amarelos.
Vê se dormes. É preciso dormir — mais do que calar.
Endireita as costas e a mala breve,
rega suficientemente as plantas que vais deixar morrer,
põe-te na estrada, cala-te um bocado.
E faz-nos, a todos, um favor:
Não escrevas uma linha enquanto estiveres lá.

Filipa Leal

(34 anos e uns meses, vá.)